segunda-feira, 5 de junho de 2017

Um tempo nas histórias da viagem para falar do que a viagem causou em mim - Camboja.

Antes de contar sobre nossas visitas aos maravilhosos e emocionantes templos de Angkor é preciso fazer um parêntese e falar um pouco sobre o Camboja (Siem Reap), um país com esses templos maravilhosos, mas com uma história de genocídio recente e incrivelmente cruel, desconhecido por mim, e talvez por você.

É difícil compreender como um país com construções religiosas e uma religião pacifista, como o budismo, se misturem a uma história tão sombria, mas isso foge do nosso entendimento.

Talvez elas não se misturem, só façam parte do mesmo país. Isso só demostra que o homem, pode criar, tanto a luz, quanto a escuridão.

Não posso contar nossa visita ao Camboja, sem dividir o que conheci do país, antes de viajar, nos três dias que o visitei, e minhas impressões sobre o que vi e vivenciei.

Então vamos lá:
Os registros do inicio das construções dos templos se dão entre os séculos IX e XV, falo deles por que eles eram na verdade o Camboja, que conhecemos hoje.

Angkor Wat o templo que todo mundo visita no nascer do sol foi construído pelo rei Suryavarman II, no começo do século XII.

Calcula-se que viveram 20.000 só nesse templo que cumpria as funções de templo principal e também o palácio real. Angkor significa “capital”.

Aqui tem a história sobre Angkor Wat que foi o primeiro templo que visitamos, vale a leitura.

O Camboja era o epicentro de um grande império asiático que abrangia pedaços do que hoje são os países do Laos, Tailândia, Vietnã e China.

Vários reis foram contribuindo com suas construções de templos e palácios, com visões budistas e hinduístas, imagens de buda, leões, gatos, elefantes, imagens místicas, formam essa visão única, mística e misturada dos templos de Angkor.

A pedra foi escolhida, por sua durabilidade, muito mais que outros materiais da época.

Numa época em que outros países tinha um milhão de pessoas, lá tinha 100 milhões, realmente era A Capital, do mundo.

Claro que muitas vidas foram escravizadas na construção, assim como a utilização de elefantes e outros métodos, como essa engenhoca, utilizada para levantar as pedras. Não somos ingênuos de pensar que muitas conspirações, e disputas por aumento de território ou proteção, não ocorreram.



Até que por volta de 1432, o império caiu enfraquecido em seu poder político e militar e não pode impedir que o reino de Ayutthaya, localizado onde hoje é a Tailândia tomasse Angkor.

Os templos porém, ficaram de pé, mas foram abandonados pela população, embora digam que os Monges nunca abandonaram Angkor Wat, e que peregrinações budistas sempre aconteceram por lá.
Esse “abandono” (que não se pode dizer que era totalmente, já que os monges continuaram vivendo e visitando os templos), durou centenas de anos, até ser “redescoberto” por uma expedição francesa, que começaram a reconstrução, isso no nosso século XX, que foi interrompida quando na década de 70, o país levou um golpe militar, e uma guerra civil se instalou no país, motivado pela guerra do Vietnã.

O Khmer vermelho.

Khmer, vale dizer, é a etnia à qual pertencem a maioria dos cambojanos, ou seja, Khmer vermelho nada mais é do que numa tradução livre: Cambojanos Comunistas.

Com apoio dos vietnamitas e a liderança do cruel Pol Pot, milhões de pessoas foram assassinada de formas cruel.

Pol Pot acreditava na massificação da população, onde todos deveriam contribuir para a sociedade, e onde dinheiro, propriedades não existiam mais, onde não deveria existir classes sociais diferentes, onde a educação deveria ser banida, ou seja, onde o individualismo deveria ceder lugar ao comunismo...ops....a sociedade.
Uma espécie de Hitler, matando seu próprio povo de fome, tortura e crueldade, caso ele não se submetesse a esse sistema.

O Pol Pot era !tão fora da casinha" que seu declínio se deu, por que, os próprios comunistas começaram a acusar uns aos outros de abandono ao sistema, numa coletiva insanidade mental.

Os relatos de torturas e genocídio da população é chocante e cruel, mas basta dar uma “googlada” para, se tiver estômago, tentar entender essa mistura doida de Khmer vermelho que teve seus lideres estudando em Paris e Londres, aderindo ao comunismo, americanos contra vietnamitas, colocação de minas terrestres, apoios ao Camboja de países como a França, e aos comunistas como o Vietnã, com uma pitada de crueldade e disputas por territórios.

Ou seja, o básico de sempre, a ganância humana, a crueldade e a loucura de alguns, impondo o medo a manipulação e a dominação da massa.

É muito louco pensar que isso ocorreu há 42 anos, no ano que nasci, ou seja, é bem recente esse lado sombrio da historia do país, e entendemos quando visitamos o Camboja a precariedade dos lugares, os postos de gasolina improvisados, os lugares feios ou sujos, a pobreza, o olhar triste por trás das pessoas que vivem lá, realmente é uma país sofrido, vemos isso nos olhares das crianças que nos abordam, nos jovens que batalham pelo seu sustento, é uma mistura de sofrimento com eterno assombro, mas é também um país em reconstrução, assim como seus templos, são um povo de pedra, resistentes ao tempo, mas que apesar da dureza pelo que passaram sorriem e lutam.

É um país que em 1993 a UNO teve que interferir nessa barbárie e fazer um acordo de paz, onde Cambojanos e Vietnã ainda trazem o amargor da divisão de territórios.

Um rei assumiu o controle do país novamente, abdicou em nome do seu filho e onde a gente olha o tanto de turistas que visitam o país e ao mesmo tempo a pobreza de seu povo e se pergunta: Quem manda nisso tudo? Quem é o dono do Camboja? Suas riquezas? O dinheiro gerado pelo turismo? Quem são os donos do hotéis luxuosos? Quem fica com o salgado ingresso cobrado para visitação?

Não tenho dúvidas que por trás há grandes potências (países, empresas, pessoas) que lucram com o Camboja, com a estrutura que “eles” ajudaram a restabelecer. É incrivelmente enojante pensar que sabemos ou compreendemos pouco o que se acontece nos bastidores dessa desvariada luta por poder e dinheiro, mas creio sempre que a justiça divina não falha e que todos, pagaram e pagarão pelos erros cometidos.

Em tempos o ditador Pol Pot morreu de causas naturais sem nunca ter colocado os pés em um tribunal (aqui na terra).

Os templos se tornaram patrimônio mundial da humanidade e o lugar de visitação turística como conhecemos hoje.

Os templos voltaram a ser reconstruídos, mas algumas de suas partes nunca serão recolocadas, pois, é um grande quebra-cabeça, muitos dos estudos sobre a reconstrução dos templos, alguns que tinham sido desmontados, forma destruídos no tempo do Khmer vermelho e foram remontados por meio da intuição.

Nosso guia nos explicou que vários fatores contribuíram para que alguns lugares se tornassem ruínas.
O tempo e creio o abandono.
A natureza, principalmente as árvores com raízes gigantes e altamente destrutivas.
O desgaste da terra
E acho que os períodos conturbados e de lutas pelo quais o país passou, li, se não me engano que nos arredores dos templos também tinham minas instaladas, hoje os arredores do templo são seguros, mas não se pode ainda cruzar essa linha turística. (Ainda hoje pessoas são mutiladas ou mortas por explosões, estima-se que o país será mais seguro em 2025)

E nesses dois links tem a história sobre o Khmer Vermelho, vai lá, é uma história triste, mas que desconhecida, creio eu, por grande parte da população.



Esse é um país em reconstrução e que tem cicatrizes ainda vivas, é um país mutilado, expulso, dizimado, empobrecido, lutando para se reerguer.

Para terem uma idéia U$ 1 equilave a mais de 4.000 Ríeis (Riel) que é a moeda local.

Ou seja, não há moedas circulando pelo país, quando o troco era menos de U$ 1, recebíamos uma nota de Riel como troco (1000/2000). 
A pobreza lá é tão grande que embora o Riel seja a moeda local, o dólar é a moeda utilizada.

Eu sabia que essa visita ao Camboja mexeria com meu coração, mas imaginava que ele seria mexido por outros motivos.

Tinha medo de chorar pelos mutilados como eu (por motivos bem diferentes é claro e em proporções infinitamente maiores), tinha medo de perceber o quanto era bobo os meus traumas diante de tamanho sofrimento físicos (por motivos tão ignorantes, como guerras e luta por poder).

Tinha medo de levar uma "Xerepe" na minha cara, como costumo dizer, quando a gente se dá conta do quanto o que sentimos é tão pequeno diante de outros sofrimentos.

Tinha medo dos recados que a vida vive me dando, de como eu choro muito por coisas pequenas, já que ainda sou muito pequena e imperfeita.

Mas a verdade é que não vi nenhum mutilado em minha viagem (de verdade), tanto que comentei com minha amiga esse fato e ela assombrada com isso, começou a me relatar as diversas pessoas que tínhamos cruzados que não tinha o braço, a mão, o cara da banda no templo, a moça no hotel....

Até agora eu me pergunto por que não vi as mesmas coisas que minha amiga viu(?)

A verdade é que acho que essa resposta é por que o que eu precisava ver, ia além dessa questão física.

O que eu vi nos olhares dessa gente mexeu mais comigo, por que o que tem no olhar deles referente a um passado tão logo ali (70% da população tem menos de 40 anos), remexem muito mais aqui dentro da minha alma, do que rever meus traumas físicos, não a dor é mais profunda, é uma dor visceral, uma dor sobre a falta de controle sobre nossas vidas.

Uma dor que não importa quem você tem na vida, ninguém passa pelo o que você precisa passar, nós somos sós.

É aquele velho conhecido meu, me jogando na cara, a verdade dolorosa de que um segundo toda sua vida pode mudar.

É também uma lição sobre resignação, sobre não abandonar a luta da vida mesmo nos piores cenários, que pra mim foi em um hospital, e para eles eram serem tirados de casa, perderem seus bens, sua família, seu intelecto, era perder a si mesmo, e muitas vezes a vida.

Eu não vi mutilados físicos, por que, eu tinha que ver os mutilados de alma, essa gente como eu que viu a morte de frente, o medo ao lado e a resignação do outro.

Minha visita ao Camboja, foi com certeza um lembrete para mim de que há muita força dentro de nós, e que apesar do medo e de desconhecer o panorama completo daqueles que nós governam e controlam (na terra e no céu) há ainda uma força maior ainda dentro da gente que nos faz lutar pela sobrevivência e tirar um sorriso, mesmo que sofrido, dentro de nosso mais terrível destino.

Eu já senti essa força, e a reconheci em alguns olhares que cruzei no Camboja e agradeço essa oportunidade.

E assim a vida continua, como nessa foto belíssima da minha amiga Dione, que além de linda, ainda fala tanto.

O que você vê nela? Me conta?


Para mim há nela:

O antigo e o novo.
A luta e a resignação.
A ostentação, a ilusão, e a euforia.
Há também a pobreza material e de espírito.
Há a cegueira.
Há o encontro.
Há o místico.
O sofrimento físico.
Há o encantamento.
Há tanto nela como na história do Camboja e de tantos de todos nós, basta ter olhos para enxergar o que você já consegue ver.

Estima-se que em quatro anos dois milhões de pessoas tenham morrido, o por quê, de muitos de nós sabermos sobre 10 pessoas que morreram em Londres e muito pouco sobre essas pessoas é um indagação que mexe com meu coração. (?)

Não há como pesar sofrimentos, e não se deve fazer isso, nada foge do olhos de Deus.
Talvez a gente saiba daquilo que a gente precisa saber, na hora que é necessário.
Agora o Camboja e os olhares daqueles que cruzei fazem parte da minha história, das minhas orações e da minha vida. 
E assim as viagens são mais do que fotos bonitas, lugares bonitos, comida e diversão, viagens nos constroem, viagem é o mundo sendo descoberto, barreiras caindo, você parte você, e volta sendo nós é como diz o proverbio chinês: Aquele que retorna de uma viagem, já não é mais aquele que partiu!
Lógico que isso acontece todos os dias de nossa vida, mas acho que viagens são um "intensivão", somos nós longe da rotina, do conhecido, voltamos a ser nós mesmos, a criança curiosa e sem barreiras, a descobridora, a Andrea leve, atenta, deslumbrada e por isso mesmo presente ao que realmente importa, tantos as coisas alegres, como as tristes.






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